23 abril 2007

do prosaico e do denso

Tive o privilégio de ler o romance inédito do Vasco Barreto. Nunca tinha lido nada tão próximo de mim; a mesma geração e o mesmo local - o mesmo "aqui e agora", como diríamos no Visões. Gostei muito, mesmo muito, e mais não digo. É a ler. Chama-se "Correr para dentro" e há-de ser publicado.

A propósito do romance, a propósito de conversas que começaram a propósito do romance, não consigo deixar de pensar como o nosso simples, o nosso, o tal da geração dos trinta, parece sempre tão prosaico face ao simples com que crescemos. O da literatura, do teatro, da música, que lemos, vimos, ouvimos e continuamos a ler, ver, ouvir.

O simples essencial, aquele que é inerente a a qualquer obra de arte, perdeu densidade. É prosaico, mesmo muito prosaico. Os conceitos, as estruturas narrativas, as diversas camadas de cada obra, podem ser terrivelmente complexas. Mas o simples, o fundamental, o que nos liga, é indescutivelmente prosaico. Quando não é, o todo é intolerável e indesculpavelmente pretencioso.

Porque é que é prosaico? Porque é que é bom que seja prosaico? E porque é que mesmo assim fica aquela sensação estranha de "eu sei que isto não é assim que se deve fazer"? Ou de "desculpem lá, mas nós gostamos mesmo assim"?

Três razões, bastante óbvias, me assaltam:

1. Parece-nos necessariamente corriqueiro o que está mais próximo. O "nosso aqui e agora" tem de ser prosaico. O dos outros é sempre mais poético. A distância provoca uma incompreensão que, quando não afasta, é fascinante. E mesmo que não seja, crescemos a aprender que era.

2. Cultivando um estilo mais ou menos autista, todos criamos para o público que existe. E a arte democratizou-se. Como o ensino. Podemos bater com a cabeça na parede e dizer que as pessoas são cada vez mais estúpidas, que só gostam de parvoíces, que embrutecem a cada dia de sofá. O que é verdade. Mas também é verdade que falamos de um universo enorme de pessoas. Um universo que inclui muitos que, até há bem pouco tempo, eram tratados como inexistentes.
Há quem enterre a cabeça na areia e viva na ilusão de um público de pares rodeado de um mar infecto de estupidez. Normalmente fingem também que são de outro tempo e lugar e o resultado oscila entre o simplesmente ridículo e o insuportavelmente pretencioso. Note-se que reservo o simplesmente ridículo para o que é desprovido de qualquer interesse e o insuportavelmente pretencioso para os casos em que sofro ao ver o bom afogado pelo pretencioso.

3. À medida que as estruturas narrativas se complexificam a linguagem despe-se. É tudo uma questão de equilíbrio. Ou, pelo menos, de equilíbrio aparente. Enganamos o nosso cérebro, prometemos mais informação com menos esforço, e ele acredita. O difícil é captar a atenção o tempo suficiente para criar a necessidade do resto. Um especialista em toxicodependência, ou em história das toxicodependências, seria a pessoa ideal para explicar esta parte.

Um destes dias volto cá.

3 comentários:

Fernando disse...

isto justificava uma reflexão mais lenta e longa.
mas voltaremos a isso.

quando falas do prosaico de "nós da geração dos 30", ocorre-me o John Cusack no Alta Fidelidade a dissertar sobre a preferência pela cueca de algodão, por muita lingerie de luxo que se use/veja.

sobre como o simples essencial passa para a obra de arte e se perdeu densidade, tenho dúvidas. quer dizer, genericamente, terá perdido (ou talvez não). mas também é preciso pensar em termos percentuais e tal: hoje produz-se e distribui-se mais objectos artístico/culturais que em qualquer época, mas a proporção de verdadeira arte no meio de tudo isto se calhar mantém-se.
teria de ser bem mais documentado do que sou para emitir juízos sérios sobre isto.

mas quando penso em coisas simples, no essencial (que de alguma forma nos transcende, digo eu), ocorrem-me por exemplo dois ou três filmes pouco facilitistas, absolutamente consensuais e sobre coisas que são mais ou menos simples, por muito dramáticas que sejam.
falo, por exemplo, do Magnólia (paul thomas anderson), do Happiness (tod solondz, acho) e da Festa (do tomas winterberg, creio).

há poética em todos eles - do argumento à realização. é inegável, mas nenhuma concessão na densidade, por mais prosaicas que sejam as questões/gestos/vidas que ali aparecem.

mas, se calhar, estou a falar de filmes que representam coisas diferentes das que referes.

nesse caso, partamos do "high fidelity", o tal filme com o john cusack (acho que realizado pelo stephen frears) baseado no livro do nick hornby (que não li mas me dizem ser igualmente imperdível).

Fernando disse...

obviamente, não é o "fernando" que assina o comentário anterior.
ainda não consegui resolver esta esquizofrenia do blogger.

nuno

Anónimo disse...

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