06 junho 2007

o que é "O Resto do Mundo"?

uma resposta, provavelmente longa demais, a um comentário do Henrique:

1. É um espectáculo de teatro que decorre num táxi. Os espectadores, 3 por sessão, ocupam o banco de trás. O taxista e o passageiro que ocupa o lugar da frente são actores. O táxi faz um percurso de uma hora pela zona oriental do Porto. A viagem começa de dia (20h45) e acaba à noite (21h45). E é isso o espectáculo; há uma banda-sonora a sair do auto-rádio, os actores contam a história, as ruas são o cenário e o pôr-do-sol é o desenho de luz.

2. É um espectáculo de teatro num espaço não-convencional que potencia a imersão do público na história que é narrada. Porque há uma proximidade muito grande entre os espectadores e os intérpretes, porque há a partilha de uma experiência sui generis por um grupo muito restrito de pessoas, porque público e intérpretes partilham uma "pequena fortaleza" que erra no meio do que é desconhecido e, por vezes, assustador. E porque a formatação com que o público está habituado a ver espectáculos ("as pessoas só ouvem o que já sabem" - diz Gregory Motton) não é facilmente aplicável, o que aumenta a disponibilidade com que os espectadores recebem espectáculo.

3. É um objecto que funde realidade e ficção. A realidade é lida com base na ficção e a ficção torna-se parábola graças à realidade. A forma como o público olha os locais que o espectáculo atravessa é condicionada pela ficção criada no interior do táxi. E a história narrada espalha-se para lá das fronteiras de tempo e lugar que descreve porque encontra paralelos no tempo e lugar, aparentemente tão distantes, em que o espectáculo decorre. O taxista liga os dois mundos porque se movimenta na cidade e invoca a personagem que narra a história. E a banda-sonora é a espinha dorsal desta fusão, servindo a história (com os temas musicais e as vozes off que servem a narração) a realidade (com a interferência de sons próprios do local e de depoimentos de habitantes) e a própria fusão (criando sons que ajudam a leitura da realidade perspectivada pela ficção).

4. É uma reflexão sobre o espaço urbano; como nos organizamos, como lidamos com a memória colectiva, como nos reinventamos na polis? No Visões este é um tema recorrente. E a utilização da fusão entre ficção e realidade, e o uso de meios que potenciam a imersão do público no espectáculo, também não é nova. Este espectáculo aparece no seguimento dos audio-walks do Porto e de Parma.
5. É a segunda parte do projecto "A caminho do resto do mundo"; uma visão sobre o nosso tempo e lugar a partir da escrita de Joseph Conrad. A primeira parte foi A Frente do Progresso. Sobre esta "parelha" há já vários textos online. Este é um exemplo.

6. É parte de um trabalho que confronta processos de criação em arte contemporânea com população que normalmente distantes da produção artistica e cujo quotidiano é marcado por fenómenos de exclusão social. Para a criação do espectáculo conversámos com habitantes de Azevedo (a única parte do Porto que fica para lá da circunvalação) e de três bairros sociais do Porto (Lagarteiro, Cerco do Porto e São João de Deus). A ligação à população está a ser feita com a ajuda de assistentes sociais que trabalham nestas zonas. Este trabalho continua até Setembro/Outubro com trabalhos na área da fotografia, vídeo e internet que vão envolver mais directamente os habitantes destas zonas.


1 comentário:

Henrique disse...

Acho que percebi o sentido do espectáculo, embora não o consiga imaginar, propriamente. O que é normal, porque não participei nele.
Vai dando notícias dos resultados, porque estou curioso de saber o que acontece.