11 fevereiro 2007

09 fevereiro 2007

As grávidas e o polícia

Acordo todos os dias com a Rádio Renascença. O meu despertador recusa-se a sintonizar convenientemente qualquer outra estação de rádio. E assim junta o acordar à RR. Uma tortura, portanto. Que estes tempos de campanham agravam substancialmente (tenho mesmo de arranjar um despertador novo).

Tudo isto para dizer que a RR me ensina a cada manhã que em cada grávida se esconde uma potencial homicida. O feto, pobrezinho, é uma vítima muda nas mãos de um carrasco que o odeia. Confesso que já estive grávida duas vezes e não percebi o risco que as minhas filhas corriam na minha companhia, dentro de mim. Que inconscientes foram o meu marido, os meus pais, os meus sogros, os meus amigos, os meus vizinhos e os polícias da esquadra da PSP mais próxima, que parecem também não ter percebido a homicida em mim.

Se o Não ganhar, com os argumentos agora usados em campanha, eu acho que a lei tem de mudar. Temos de ser mais vigilantes. Qualquer mulher com uma gravidez de risco que em algum momento não cumpra uma indicação médica e perca o filho deve ser obrigada a prestar serviço comunitário no hospital mais próximo. Qualquer mulher que fume, beba, ou tenha qualquer outro comportamento de risco durante a gravidez, deve passar a andar com orelhas de burro na cabeça. E qualquer suicida que tenha o azar de não ser bem sucedido deve passar o resto dos seus dias na cadeia. E mái nada! A vida humana tem de ser protegida pela força!

E não sei mesmo se devemos ficar por aqui. É certo que em cada ovo está já o ADN de um novo ser. Mas em cada óvulo e cada espermatozóide não está já a capacidade de criar um ovo? Os Monty Python é que têm razão: "every sperm is sacred"

05 fevereiro 2007

A crueldade de não votar sim

Eu tenho poucas certezas em relação à pergunta que gostaria que me fizessem no dia 11. Mas tenho a certeza absoluta que no dia 11 tenho de votar sim. Só depois de uma vitória do sim podemos conversar normalmente sobre o aborto. Até lá esta é uma daquelas discussões absurdas em que se sentam carrascos e vítimas à mesma mesa.

07 janeiro 2007

Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Sim, por favor.

Continuar a contribuir com os meus impostos para a financiar a perseguição policial e judicial a mulheres que abortaram clandestinamente? Não, obrigada.

Continuar a contribuir com os meus impostos para financiar o tratamento médico a mulheres que abortaram clandestinamente? Não, obrigada.

Continuar a contribuir com os meus impostos para financiar funerais de mulheres que abortaram clandestinamente? Não, obrigada.


O referendo é sobre não continuar a contribuir para a perseguição, o tratamento médico e os funerais associados ao aborto clandestino. Se (quando) o sim ganhar terá de se decidir o resto. Eu estou absolutamente convencida de que se o aborto não for praticado em hospitais públicos, ou de alguma forma financiado pelo Estado, passamos a contribuir para o tratamento médico e funerais associados a abortos feitos em más condições. E as vítimas continuam a ser as mesmas de sempre. Mas ainda não chegámos aí. Estamos só parte do "vamos parar de perseguir e a isolar mulheres num dos piores momentos da sua vida, ou não?".

31 dezembro 2006

E o inacreditável tornou-se realidade

Acontece a todo o momento, redefinindo o escopo do acreditável. Quando não damos por ela perdemo-nos mais um bocadinho.

Neste nosso cantinho em 2006:
Cavaco Silva foi eleito Presidente da República;
A Câmara Municipal do Porto decidiu dar o único teatro municipal da cidade ao La Féria.

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Roubei o título a Hrabal em "Eu que servi o Rei de Inglaterra". Um belo texto que o VU vai repor em 2007.